terça-feira, 13 de junho de 2017

302ª Nota - Podem os fiéis denunciar os hereges antes do juízo da Igreja?


PODEMOS AFIRMAR ALTO E BOM SOM QUE ALGUÉM É INIMIGO DA IGREJA ANTES DE SEU VEREDITO?

Continuamente aparece esta pergunta quando se fala de temas relacionados com o sedevacantismo, sobretudo em boca dos “reconhecer-resistir”. Quando o oponente carece de argumentos, surge a objeção de que os sedevacantistas não têm nenhuma autoridade para dizer o que dizem – por exemplo, para determinar quem é herege, ou dizer se uma conclusão teológica particular de fato é a correta – como se requeresse um ato da autoridade para discernir se um homem é católico ou herege, ou como se o ensinamento católico se levasse a cabo somente em teoria, porém nunca se permitisse aplicar na prática a uma situação concreta.

Esta tática não é nova, e o grande antimodernista P. Félix Sardá y Salvany refutou faz mais de 100 anos em sua monumental obra O Liberalismo é Pecado (1886). Este livro foi respaldado e louvado pela Sagrada Congregação do Vaticano do Santo Ofício sob o Papa Leão XIII. O livro expõe as ideias e táticas dos modernistas, chamados liberais, e não deixamos de recomendá-la. De fato, pode-se dizer que este livro destrói por completo muitas ideias fundamentais do falso Concílio Vaticano II (1962-65) e a nova religião que gerou (que chamamos a religião Novus Ordo).

É lamentável, e talvez revelador, que hoje escutamos os argumentos que utilizavam os modernistas, repetidos agora pelos que se consideram a si mesmos católicos tradicionais.

O capítulo 37 de O Liberalismo é Pecado se refere especificamente à objeção de que um leigo não pode descobrir a heresia por sua conta, e/ou não se pode acusar a outro de ser herege. Nada mais longe da verdade!

XXXVII - SE É OU NÃO É INDISPENSÁVEL EM CADA CASO PARTICULAR RECORRER AO VEREDITO CONCRETO DA IGREJA E DE SEUS PASTORES PARA SABER SE UM ESCRITO OU PESSOA DEVEM REPUDIAR-SE E COMBATER-SE COMO LIBERAIS.

“Tudo o que acabais de expor, dirá alguém ao chegar a este ponto, encontra na prática uma dificuldade gravíssima. Tendes falado de pessoas e escritos liberais, recomendando com todo o empenho que fujamos, como da peste, deles e até dos seus mais remotos laivos de Liberalismo.

Mas, quem se atreverá, por si só, a qualificar de liberal tal pessoa ou escrito sem mediar o veredito decisivo da Igreja docente, que os declare tais?

EIS AQUI UM ESCRÚPULO, OU, ANTES, UMA TOLICE, MUITO EM VOGA DE ALGUNS ANOS PARA CÁ, POR PARTE DOS LIBERAIS E DOS MAIS OU MENOS INFLUENCIADOS DE LIBERALISMO; TEORIA NOVA NA IGREJA DE DEUS, E QUE TEMOS VISTO COM ASSOMBRO PERFILHADA POR QUEM NUNCA IMAGINARÍAMOS PUDESSE CAIR EM TAIS ABERRAÇÕES; teoria, além disso, tão cômoda para o diabo e seus sequazes que apenas um bom católico os ataca ou desmascara, imediatamente os vemos acudir por ela e refugiar-se em suas trincheiras, perguntando com ares de magistral autoridade: ‘E quem sois vós para qualificar-me de liberal, a mim e ao meu jornal? Quem vos constituiu mestres em Israel para declarar quem é bom católico e quem não o é? É a vós que se há de pedir patente de Catolicismo?’

Para qualificar uma pessoa ou um escrito de liberais, deve-se aguardar sempre a sentença concreta da Igreja docente sobre tal pessoa ou escrito?

Responderemos categoricamente que de modo nenhum!

A ser certo este paradoxo liberal, fora indubitavelmente o meio mais eficaz para que na prática ficassem sem efeito todas as condenações da Igreja, com respeito assim a pessoas como a escritos.

A Igreja é a única que possui o supremo magistério doutrinal de direito e de fato, juris et facti, sendo a sua suprema autoridade, personificada no Papa, a única que definitivamente e sem apelação pode qualificar doutrinas em abstrato, e declarar que tais doutrinas as contém ou ensina em concreto o livro de tal ou tal pessoa; (...).

Pois bem. Tudo isto se refere ao veredito último e decisivo, ao veredito solene e autorizado, ao veredito irreformável e inapelável, ao veredito que temos chamado de última instância. Mas não exclui para luz e guia dos fiéis outras decisões menos autorizadas, porém, também muito respeitáveis, que não podem desprezar-se, e que podem até obrigar em consciência o fiel cristão. São as seguintes...: (...) 5ª – A da simples razão humana devidamente ilustrada. Sim, senhor, até isto é lugar teológico, como se diz em teologia, quer dizer é critério científico em matéria de religião. A fé domina a razão; esta deve estar-lhe em tudo subordinada. Porém é falso que a razão nada possa por si só; é falso que a luz inferior acendida por Deus no entendimento humano não alumie nada, ainda que não alumie tanto como a luz superior. (...)

Subamos, porém, a uma consideração mais geral. De que serviria a regra de fé e costumes, se a cada caso particular não pudesse fazer imediata aplicação dela o simples fiel, mas devesse andar de contínuo a consultar o Papa e o Pasto diocesano?”

(Excerto extraído do blogue Amor de La Verdad)