quarta-feira, 31 de agosto de 2016

245ª Nota - Do desejo da vida eterna e quantos bens estão prometidos aos que combatem



Hás de passar ainda por muitas provações na terra e ser exercitado em muitas coisas. Consolações se te darão de vez em quando, mas plena satisfação não poderás receber. Esforça-te, pois, e tem coragem, para fazer e sofrer o que repugna à natureza. Importa que te revistas do homem novo e te transformes em outro homem. Cumpre-te fazer muitas vezes o que não queres e deixar o que queres. O que agrada aos outros, terá sucesso; o que te agrada, não se fará. O que os outros dizem, será atendido, o que tu dizes, será desprezado. Pedirão os outros e receberão; tu pedirás, e não alcançarás.

Serão grandes os outros na boca dos homens, mas de ti nem se dirá palavra. Os outros serão encarregados de diversas comissões, e tu não serás julgado capaz de coisa alguma. Com isso se contristará, às vezes, a natureza; mas muito ganharás, se o sofreres calado. Nestas e outras coisas semelhantes costuma ser provado o servo fiel do Senhor, para ver como sabe negar e mortificar-se em tudo. Dificilmente haverá coisa em que mais te seja preciso morrer a ti mesmo, do que ver e sofrer o que é contrário à tua vontade, mormente quando te mandam fazer coisas que te parecem inúteis ou desarrazoadas. É porque não ousas resistir à autoridade do superior, sob cujo governo estás, duro te parece andar à vontade de outrem e deixar de todo o teu próprio parecer.

Mas considera, filho, o fruto destes trabalhos, o fim breve e o prêmio excessivamente grande, e não te serão molestos, mas acharás neles consolo para teus sofrimentos. Pois por um pequeno desejo que agora sacrificas, tua vontade será sempre satisfeita no Céu, pois ali acharás tudo que quiseres, tudo o podes desejar. Ali possuirás todo o bem, sem medo de o perder. Ali tua vontade, sempre unida com a minha, nada desejará fora de mim, nada que te seja próprio. Ali ninguém te fará oposição ou de ti se queixará, ninguém te causará estorvo ou contrariedades: antes tudo quanto desejares já estará presente, para preencher e satisfazer plenamente todos os teus desejos. Ali te darei a glória pela injúria padecida, uma túnica de honra pela tristeza, pela escolha do ínfimo lugar, um trono em meu reino para sempre. Ali brilhará o fruto da obediência, alegrar-se-á a austera penitência e será gloriosamente coroada a sujeição humilde.

Sujeita-te, pois, agora humildemente à vontade de todos, sem te importar quem foi que tal disse ou mandou. Mas cuida muito em acolher de bom grado qualquer pedido ou aceno, seja de teu superior, ou embora de teu igual ou inferior, e trata de o cumprir com sincera vontade. Busque um isto, outro aquilo; glorie-se este numa coisa, aquele em outra e receba mil louvores; tu, porém, não te deleites numa nem noutra coisa, mas no desprezo de ti mesmo e na minha vontade e glória. Este deve ser o teu desejo: que tanto na vida como na morte, Deus seja sempre por ti glorificado. 

(Imitação de Cristo, Venerável Tomás de Kempis)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

244ª Nota - O rosto de Nossa Senhora


A cabeça da Virgem de Guadalupe é uma das grandes obras-primas de expressão artística facial. Desde à fineza da forma, à simplicidade da execução, ao matiz e ao colorido, existem poucos casos que se lhe comparem entre as obras-primas do mundo. Dos retratos que tenho observado na minha vida, não existe nenhum executado de tal maneira.

As aproximações fotográficas com “luz infravermelha” não demonstram preparo algum, características que por si mesmo faz da pintura algo de fantástico.

O tom da cútis do rosto e das mãos é definitivamente indígena e, a uma distância de aproximadamente um metro, parece ter um tom quase verde cinzento (oliva). Examinados de perto, com uma lupa, os pigmentos dão a impressão de que variam do cinza nas sombras profundas para o branco brilhante na região mais clara das bochechas.

A ausência de emplastro é evidente não só na aproximação com o infravermelho, mas  também nas tomadas fotográficas com luz visível. Por isso, vêem-se vazios os interstícios no tecido da tela. É de grande interesse a parte mais clara da bochecha, feita com um pigmento desconhecido, que aparece praticamente “aglutinado” no tosco tecido da tilma. À primeira vista apareceria embaçado no infravermelho e, por isso, semitransparente à radiação infravermelha. Se o brilho do pigmento da bochecha fosse de grossas camadas reais de cal ou de gesso, é absolutamente certo que as grossas camadas aplicadas na tela se teriam gretado com o passar dos séculos.

As áreas sombreadas em tonalidades cinzentas, como as do lado direito do rosto (junto ao nariz), a da boca e da covinha sob a boca estão sutilmente pintadas e a grosseira trama do ayate sobressai nelas.

A formosa expressão de meditação é constituída por simples linhas escuras e finas, que desenham as sobrancelhas, a silhueta do nariz e a boca.

Nas fotografias tiradas de perto, o rosto aparece desprovido de perspectiva, achatado e de tosca execução. Mas, contemplado a certa distância, surge nele uma elegante profundidade.

Uma das maravilhas e inexplicáveis técnicas empregadas para dar realismo à pintura se refere à forma como se aproveita a tilma, não preparada, para dar ao rosto uma profundidade e aparência de vida. Isto é evidente, principalmente na boca onde uma falha do fio do ayate sobressai do plano deste e continua à perfeição no contorno superior do lábio. Outras toscas imperfeições do mesmo tipo aparecem sob a área clara da bochecha esquerda e à direita e embaixo do olho direito. Considero impossível que qualquer pintor humano tenha escolhido uma tilma com falhas no tecido e situadas de tal forma que acentuassem as luzes e as sombras para dar um realismo semelhante. É muito mais do que inconcebível a possibilidade de uma coincidência.

Conforme se vê nas fotografias infravermelhas, os olhos e as sombras em torno do nariz são simples linhas escuras não traçadas de antemão na tela, mas são parte do mesmo pigmento do rosto. Vendo a pintura de perto, as partes mais claras das pálpebras são tênues que parecem inexistir.

O preto dos olhos e dos cabelos não pode ser óxido de ferro, nem outro pigmento que se torna cinza com o tempo, porque neles a pintura não está descascada nem desbotada.

O que há de verdadeiramente extraordinário no rosto e nas mãos é a qualidade de tom, que é um efeito físico da luz refletida, tanto pela tosca tilma como pela própria pintura.

É um fato indiscutível que, se olharmos de perto o relevo e o colorido do rosto, ficamos decepcionados. Mas, contemplando-o a uns metros, a cútis adquire um matiz que poderíamos qualificar de verde-oliva ou verde-cinza. Até parece que o cinza e o aparentemente “aglutinado” pigmento branco do rosto e das mãos combinam com a superfície tosca da tilma para “recolher” a luz e refletir ao longe o tom oliva da cútis. Parece ser impossível conseguir semelhante técnica por mãos humanas, embora a natureza no-la ofereça com frequência na coloração das plumas das aves, nas escamas das mariposas e nos élitros dos coleópteros brilhantes coloridos. Tais cores obedecem à refração da luz e não dependem da absorção ou reflexão da luz por parte dos pigmentos moleculares, senão do relevo da superfície das plumas e das escamas das mariposas.

Este mesmo efeito é evidente no rosto e é observado sem dificuldade quando o espectador se afasta lentamente da pintura, até que os detalhes das imperfeições do tecido do ayate já não fiquem visíveis.

Numa distância em que o relevo e o pigmento da superfície se fundem, brota como por encanto a avassaladora beleza da Senhora morena. De repente, a expressão do rosto aparece reverente, embora gozadora, índia embora europeia, de textura oliva, embora com matizes brancos. A impressão que dá é a de um rosto tão áspero como os desertos do México e, também, tão gentil como o de uma noiva na sua noite de núpcias. É a face que estremecia a cristandade da Europa bizantina com o naturalismo subjugante do Novo Mundo indígena: um adequado símbolo para todos os povos de um grande continente.

CONCLUSÃO

O rosto inteiro é feito com pigmentos desconhecidos, misturados de tal maneira que aproveitam as qualidades da difração da luz causada pela tela sem preparo, para dar o matiz oliva à cútis. Além disso, a técnica se serve das imperfeições do tecido da tilma para dar uma grande profundidade à pintura.

O rosto é de tal beleza e de execução tão singular, que se torna inexplicável para o estado atual da ciência.
(J.J.Benítez, in O MISTÉRIO DA VIRGEM DE GUADALUPE, 1982)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

243ª Nota - Reflexões sobre a liturgia


Nas suas celebradas Instituições Litúrgicas (tom. 2, pág. 10, ed. 1878), Dom Guéranger escreve que se fosse admissível contestar leis litúrgicas, “…seguir-se-ia que a Igreja errara numa disciplina geral, o que é herético.” Na Quo Graviora (1833), o Papa Gregório XVI pergunta retoricamente: “Poderia a Igreja, que é a coluna e o fundamento da verdade [1 Tim. 3,15] e manifestamente recebe sem interrupção do Espírito Santo o ensinamento de toda a verdade, ordenar, conceder ou permitir o que trouxesse dano às almas e desprezo ou prejuízo a um sacramento instituído por Cristo?” Todos os teólogos estão de acordo que o Concílio de Trento e a Auctorem Fidei do Papa Pio VI ensinam a infalibilidade das disposições litúrgicas da Igreja, no sentido de que estas, mesmo quando meramente aprovadas e não obrigatórias, não têm como ser infiéis à sã doutrina ou à missão santificadora da Igreja.
(Excerto de um artigo de John Daly, postado no Acies Ordinata)
Sendo assim, perguntamos: o Concílio Vaticano II foi um verdadeiro concílio da Igreja? a igreja conciliar de João XXIII a Francisco Bergoglio é a verdadeira Igreja de Cristo-Rei?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

242ª Nota - Renovação Carismática é católica?


Qual a origem do carismatismo “católico”?
O carismatismo “católico” nasceu nos Estados Unidos, em Pittsburgh (Pensilvânia), em 20 de fevereiro de 1967, dia em que dois católicos da Universidade de Duquesne receberam a imposição das mãos, em um grupo de oração dirigido por uma presbiteriana, e começaram a falar em línguas. Utilizaram, em seguida, o mesmo rito para transmitir a outros católicos os poderes assim recebidos.

Qual o efeito do rito pentecostal sobre os primeiros católicos que o receberam?
A imposição das mãos produziu sobre os estudantes católicos da Universidade de Duquesne os mesmos efeitos bizarros que sobre os protestantes. Um dos dois contou: “Minha alegria era tão grande que não podia fazer nada além de rir, estendido por terra.” Um outro: “O sentimento que eu tinha da presença de Deus era tão forte que me recordo de ter ficado sentado uma meia hora na capela, rindo de alegria no pensamento do amor de Deus.” Um terceiro: “Desde que me impuseram as mãos, pareceu-me que todo meu peito iria estourar. Meus lábios começaram a tremer e meu espírito a girar em turbilhão. Depois, eu sorria beatamente, não podia me impedir de fazer isso.”

O que manifestam essas reações?
Essas reações chocantes revelam uma intervenção demoníaca. Enquanto o Espírito Santo faz reinar a ordem e a discrição, o espírito demoníaco, mesmo quando se disfarça em anjo de luz, trai-se geralmente por alguma manifestação grotesca {O místico inglês do século XIV, autor da obra “Le Nuage de l’inconnaissance” [um dos livros de base dos noviços cartuxos], escreveu assim: “Há, com efeito, esse iludidos todos saturados de manias incomuns em sua atitude exterior. [(...) Alguns] não cessam de sorrir ou de rir a toda palavra que pronunciam, como meninotas de riso solto ou como jograis a quem falta postura e que se entregam a todas as palhaçadas. Todavia, a atitude que deveriam conservar seria a de uma perfeita decência, com muita ponderação e com muita reserva em sua postura e na expressão de sua alegria. Não quero dizer que esses hábitos pouco decentes sejam, por si mesmos, grandes crimes; nem que aqueles que os adquirem sejam grandes pecadores; mas se esses hábitos tomam conta de um homem tão fortemente que ele não possa se desfazer deles quando quiser, eles são sinais[...] É por eles que o operário espiritual manifestará o que é a sua obra. [...] Será o demônio, seu inimigo espiritual, que os fará experimentar um fogo interior cuja causa é seu orgulho, a fraqueza da carne e a inquietude de seu espírito. Mas imaginarão, erroneamente, sentir o fogo do amor e obtê-lo da Graça e da Bondade do Espírito Santo. [...] A ilusão que procede desse falso sentimento, e do falso conhecimento que a acompanha, reveste formas variadas e estranhas, conforme a diversidade dos estados e das condições particulares daqueles que sucumbem a ela.”}.

A Renovação Carismática não realiza um certo bem trazendo de volta ao Catolicismo algumas almas, e mantendo a piedade em outras?

O demônio, que enxerga a longo prazo, sabe perder um pouco para ganhar muito. É o ensinamento da Bem-Aventurada Maria da Encarnação: “Os êxtases, as visões e as revelações não são de jeito nenhum um argumento inconteste da permanência ou da assistência de Deus em uma alma. Quantos se viram que foram enganados com esses tipos de visões? Embora tenham sido a causa da conversão ou mesmo da salvação de algumas almas, é um estratagema do espírito maligno que fica contente em perder um pouco para ganhar muito”.
(Padre Mathias Gaudron, FSSPX, Catecismo Católico da Crise da Igreja, 2011)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

241ª Nota - Marxismo, Evolucionismo e Existencialismo: loucuras modernas


Lembra-me aqui um manual marxista que me chegou às mãos, e em que o autor, para combater o que ele chamava de espiritualismo, prova a não existência da liberdade com um argumento deste quilate: um orador tem necessidade de beber água porque a prolongada eloquência seca a garganta. Bebe-a, então, por esse motivo físico e fisiológico, e não por livre arbítrio. Não me consta que tenha existido algum autor tão desvairadamente espiritualista que tenha chegado a negar a existência da garganta. O orador bebe água, efetivamente, porque a garganta secou. Esta explicação se enquadra bem em qualquer doutrina filosófica e em qualquer religião. É uma explicação sucinta e clara. Mas o que já não é tão claro, sobretudo para um marxista, é o motivo da eloquência. E se nós adicionarmos à pregação marxista as notas de fervor e de patético que costumam acompanhar a eloquência, ficará cada vez mais misteriosa a atitude daquele indivíduo que agora, num momento de clara racionalidade, bebe o seu copo d’água. O marxismo, como ninguém ignora, é uma grande aventura que tem por objetivo purgar a história do homem do espírito de aventura. Será a última aventura para acabar com a aventura, o último ímpeto de fervor para matar o fervor, o último esforço de heroísmo.
(...)
O evolucionismo é também uma doutrina nascida da mesma incapacidade de compreender, de suportar o aspecto de aventura que põe um frêmito na história do mundo. A variedade das espécies aparece diante desse tipo de observador como uma intolerável desordem. Sendo admissível que se busque, com o critério da economia de causas, a melhor explicação da diversidade, o evolucionista leva ao paroxismo essa razoável tendência, com a insensata ideia de abafar no nascedouro o que lhe parece ser um prurido de desordem. Ele quer inculcar ao universo uma disciplina de internato, e sonha pôr em ordem de marcha, em fila, todas as coisas do universo, desde o caramujo até o descobridor do pólo Sul. O existencialista, ao contrário, pretende libertar o homem das concatenações que o princípio da economia lhe impõe, deixando-o sempre no limiar de uma aventura. O homem não tem natureza: está sempre na origem; está sempre nascendo, úmido sempre das águas genesíacas. Será nessa mensagem que tanto valoriza o concreto, a experiência própria, que eu deveria buscar minhas lições de abismo?

(Gustavo Corção, excertos de Lições de Abismo)